Em alguma fase da vida, é normal que o skatista se imagine vivendo sem andar de skate. A idade avança, as responsabilidades vêm junto, e para a maioria o sonho de viver do skate se afasta a cada dia . Uma lesão também pode trazer esse fantasma assustador pra dentro do pensamento. Em algum momento, o skate vai deixando de ser a primeira razão de viver e passa a ser mais uma das obrigações, talvez a mais importante delas. Sim, pois acredito que os compromissos que assumimos com nós mesmos, sem objetivos maiores a não ser a satisfação pessoal, são aqueles nos quais devemos empregar maior quantidade de tempo e esforço. Andar de skate pra sempre, ou pelo menos viver envolvido com ele, é uma dessas decisões imutáveis. Viver sem skate seria como acordar de um sonho bom e mergulhar fundo num pesadelo infinito.
Durante algum tempo, imaginei o que faria eu aos sábados à tarde, caso chegasse o dia em que não andasse mais de skate. Outros períodos também me perturbavam, mas pensar como seriam os sábados após o almoço era particularmente angustiante. Quando prestava atenção naquilo que meus conhecidos não skatistas faziam, meu desespero só aumentava.
Com o andar do tempo, a maioridade chegando, o skate foi incorporando-se a minha rotina e essa preocupação foi desaparecendo. Mesmo trabalhando e estudando, o momento do skate continuava lá, sagrado. E o mais legal é ver que existem muitas outras pessoas que também assumiram responsabilidades, mas que mantiveram-se firmes no propósito de não deixar o prazer pessoal sucumbir diante de uma agente complexa. Estar feliz com si próprio é condição fundamental para boas relações. E ninguém consegue saber o que queremos melhor do que nós mesmos. Sábado a tarde, tô na rua.
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